segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Illusion – Henry Brown Fuller 1895

Illusion – Henry Brown Fuller 1895

Nem será tanto a glorificação do esplendor do nu, aquilo que o autor nos propõe. Talvez o mais importante, em termos de técnica pictórica, seja a subtil precisão da captação do movimento do “instante”, entre a formulação gestual de um pedido e a expressão terna da sua recusa. É esta impressão da ideia de movimento, a animar duas estáticas figuras humanas, que a pintura ganha grandeza e notoriedade. Tracemos várias rectas paralelas imaginárias, a partir do ombro e da cabeça da criança, até à esfera translúcida e até à cabeça da mulher, e aí descobriremos o “truque” do autor. É nesse espaço que se concentra a força da representação do movimento com que a pintura ganha vida. É este, pois, o ponto central da pintura, o seu eixo estruturante, uma pintura que se enquadra no cânone da corrente artística do Realismo.
Para provocar um maior deslumbramento no espectador, mas assumindo o risco de não poder errar na descrição anatómica figurativa, o que seria fatal, o autor opta por preencher todo o iluminado espaço do primeiro plano com as duas figuras humanas, deixando difuso e escurecido, intencionalmente, o plano de fundo. O efeito, em termos de conjunto, é notável. O nu atinge o seu máximo esplendor, ao mesmo tempo que o espectador é envolvido num ambiente aristocrático, aqui identificado e sinalizado, de uma forma discreta, pelo mármore da balaustrada e do peitoril da varanda.
Em 1895, data da execução desta pintura, a corrente do Realismo, na literatura e nas artes, aproximava-se do fim. A seguir, iria assistir-se à grande revolução do modernismo, nas suas múltiplas expressões, em que se abandona a ideia da representação e da captação do mundo real. As artes passarão a ser comandadas pela “febril” e criativa imaginação dos seus autores e pela descoberta de novas formas e de novas leituras.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Esta noite choveu prata sobre o rio...

Escultura de João Cutileiro – Lago das Tágides, Parque das Nações, Lisboa
Fotografia de Jaime Silva

Esta noite choveu prata sobre o rio

Esta noite choveu prata sobre o rio
eram lágrimas de dor do sufoco do poema
derramadas às portas da cidade… 
E Lisboa emudeceu...

Ficarei a vaguear por aqui
banhando-me no rio com as Tágides
até ao dia das auroras e da reverberação da luz
na lâmina líquida das águas
e a acordar todos os sonhos adormecidos...
...
E Lisboa adormeceu… 

Alexandre de Castro


Lisboa, Dezembro de 2015

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Dissertação sobre as vírgulas…


Dissertação sobre as vírgulas…

À minha amiga Maria João Correia,
que se diverte imenso, quando eu
invento uma vírgula…

Não ligues
são apenas moscas
entre as palavras
como se fossem pestanas
a embelezar o olhar
de quem as lê.
São artifícios burlescos
para ilustrar os discursos dos políticos
às segundas feiras
quando inventam as mentiras
para entreter os jornais durante a semana
são as pausas do esquecimento
quando já não há mais nada para dizer
a não ser o que foi dito
ou, se quiseres, são os berros do Cristiano Ronaldo
quando os neurónios migram para os pés
e ele dá pontapés na gramática.
A vírgula é uma síntese do nada
e o limite do zero absoluto,
a bissetriz dos ângulos rugosos da memória,
o ponto morto do equador,
que o Gama levou para a Índia
e que por lá ficou a apodrecer
no túmulo de um jesuíta.
Mas a vírgula é muito mais do que isto.
A vírgula é, na sua profunda essência e potência,
a caganita da mosca, que aterrou no poema…

Alexandre de Castro

Lisboa, Janeiro de 2015 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Dissertação sobre o canto do teu encanto… [seguido de um postulado e de um axioma]



Dissertação sobre o canto do teu encanto…
[seguido de um postulado e de um axioma]

O teu canto está no teu encanto
E o teu encanto vem da tua alma generosa e bela
que flutua na delicadeza das nuvens,
entre o Céu e a Terra, e que nos seduz
na harmonia celestial da luz.

Pelo teu corpo e pelos teus poemas
desce lentamente o manto diáfano da brancura,
com que te vestes.
Sabes conquistar a paz, no tormento da guerra.
Sabes que todos nós andamos sequiosos de palavras doces,
tanta é a amargura dos dias e das noites.
Sabes tudo isso...
E eu não sei como devolver-te tanta ternura,
que veio agarrada às palavras e ao teu gesto.
Já não sei...

Apenas posso oferecer-te palavras quentes,
que já não aquecem,
ideias gastas pelo tempo,
que já não motivam
florestas de árvores
que já não ardem, nem incendeiam paixões.
 
Ainda posso oferecer-te
o universo inteiro dos meus sonhos,
- os que alimentam a fome que me consome.
É nele que guardarei o teu amor,
porque nunca esquecerei o canto do teu encanto…

Alexandre de Castro
Lisboa, Dezembro de 2015

Se a catedral que construíste e em que habitas é "o canto do teu encanto", então, eu fico, para receber a bênção dos céus. Queimarei 0 Sol que incendeia as areias do deserto, para que os teus poemas, que tu dizes serem meus, sobrevivam ao esgotamento do tempo. 

Postulado místico-religioso, seguido de um axioma da Física Quântica, que se acrescenta ao poema e à sua natureza, tendo sido escrito, segundo as Escrituras, e levando, como garantia sagrada, o selo divino. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

Quando danças à espera do meu abraço…



Quando danças à espera do meu abraço…

Pluma de uma dança esvoaçante, silhueta de luz
flutuante, na delicadeza dos teus passos
o corpo a desdobrar-se, ganhando formas
e sentidos em constantes movimentos.
Ondulações suaves na busca da harmonia,
cortando o  ar ao  dardejar  dos braços,
em apelos vibrantes ao fogo do meu olhar
e a cavalgar os hinos de sinfonias mitológicas,
que decifras a cada instante.

Sinto o bafo quente que exalas quando falas
desse  teu  corpo  que se eleva, suspenso e tenso,
numa leveza etérea, ausência da gravidade
que a todos amarra à Terra,
e és uma linha firme, o fio de uma lâmina
brilhando no firmamento,
na apoteose final do meu abraço…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2012

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Querias um tempo com as policromias das aves tropicais…


*


Querias um tempo com as policromias das aves tropicais…

À Súh Floyd
(Uma amiga fiel, de há muito tempo)


Todos os artefactos, de que te rodeias,
desenham o teu corpo de diva
– a vertigem de um corpo alado de mulher
a voar em frente dos espelhos, em círculos
criativos, a marcar as mutações dos gestos e das poses.
A franja garrida do cabelo era uma irreverência constante
(e a mim dizias-me: querido, isto é uma ternura minha)
a desafiar a ordem estabelecida pelas academias,
que tu renegaste quando ouviste pela primeira vez a
a rebeldia a sair de um disco dos Pink Floyds,
e tu começaste logo a cantar o Another Brik in the Wall
enquanto curvavas o corpo para o auto-retrato do dia.
Os anéis e os colares étnicos eram os sinais da ancestralidade perdida,
e tu querias que eu te levasse para os lugares divinos
do movimento underground, para cantarmos no Hyde Park
uma miscelânea de rock psicadélico e surf music
Querias ser um ícone a anunciar a ruptura do tempo…
Querias um tempo com as policromias das aves tropicais…

Alexandre de Castro
Lisboa, Dezembro de 2015

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Àquela hora…



Àquela hora…


Àquela hora
das noites acordadas
em que aparecias,
tudo se agitava
em euforias ressuscitadas.
Agora, é o vazio,
das escadas que não rangem
da porta semiaberta que não se fecha
da ausência dos teus passos lentos.
Uma solidão enorme
de silêncio
de asfixia
de sufoco
um mar imenso
sem navios
e aquele medo do escuro
e de ficar só!

Alexandre de Castro

Lisboa, Maio de 2007 

sábado, 21 de novembro de 2015

HOPE (Visions of Whitefeather)



Foi neste caminhar pelos séculos fora que nos fizemos Humanidade, desafiando o perigo das encruzilhadas, interrogando ansiosamente o céu, à procura das origens e avançando sempre com o medo de nos perdemos. Aprendemos a viver como lobos, carregando um pesadelo milenar, mas sempre sonhámos com a alegria das pombas, embora a Guerra e a Paz pertençam, implacavelmente, ao nosso património genético primordial. E é difícil libertarmo-nos desse ciclo infernal!...
AC

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A última declaração de amor…


A última declaração de amor…

Quando começarmos a decapitar e a enforcar as estátuas
é porque já estamos em declínio.
É o tempo em que o tempo se escapa pelos dedos.
E isto também é verdade para as praias e para os búzios.
Infelizmente...
Depois do naufrágio,
irei novamente subir as escarpas dos rochedos
que guardam a praia.
E ali ficarei a olhar o luzeiro do céu,
para ver as estrelas a incendiar as almas.
Farei então a minha última declaração de amor.

Alexandre de Castro
Lisboa, Novembro de 2015

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Paris13... o meu endereço...

Amabilidade de Leida Gomes
**
O terrorismo islâmico não está a atacar os seus inimigos. Está a matar, à traição, cidadãos inocentes…

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Estátua




Estátua

Não sei se fechei as cortinas
da janela do teu quarto
quando nos medimos
a olhar um para o outro
as mãos estavam inquietas
e nervosas, à espera do teu sinal
e tu continuavas imóvel
como uma estátua
e nunca cheguei a saber
se eras mármore ou granito
à espera que eu esculpisse
o teu corpo em sobressalto.

Alexandre de Castro

Lisboa, Junho de 2007

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Fotografia: Madragoa _ Lisboa...

Fotografia de Paulo Vasco

É por aqui que se passeia o diáfano encanto de Lisboa 
e onde ainda se respira o doce odor do cravo e da canela. 
É por estas ruelas que a Madragoa canta... 
Uma janela feiticeira que se abre para o rio. 
Um mar de luz a afagar o nosso olhar...
Alexandre de Castro

***

O autor da fotografia deixou esta sugestiva legenda: " A minha Rua é toda ela uma aguarela para o pintor ".

Pintura: Amadeo Modiglian _ nu deitado

Amadeo Modiglian (i1884 1920) _ nu deitado (1917-1918)

O diáfano e sublime  encantamento do nu!...
O perfume de um corpo que se entrega
à liberdade do desejo!...
Tudo são incandescências nesta pintura
como se uma fogueira fosse ateada 
por um sopro divino!...
***
Recentemente, esta pintura de Modaglian foi leiloada em Nova Iorque, pela Christie's, pelo valor de 170,4 milhões de dólares. Trata-se da segunda transacção mais cara neste segmento de mercado, ficando um pouco abaixo da "Les femmes d' Arger", de Picasso, que foi vendida em leilão por 179,4 milhões de dólares.   
A pintura "Nu deitado" foi arrematada por um chinês, um multimilionário que foi condutor de táxis. Não sei se o homem é um apaixonado pela pintura ou se, apenas, é um negociante de obras de arte.
Quando Modaglian expôs, pela primeira vez, esta pintura, em Paris, houve manifestações de protesto à porta da galeria, de tal violência, que obrigou a polícia a intervir e a encerrar a exposição. Que diferença abissal nos separa desses tempos de chumbo, em que imperava uma moral burguesa impiedosa, arrogante, justiceira e castradora!... 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Talvez ainda tenha tempo…


Talvez ainda tenha tempo…

Dizem que o fogo purifica tudo
e que limpa a alma quando se consome
mas eu tenho fogueiras a arder dentro de mim
que abrem feridas antigas que ainda sangram
já não sou o que fui nem serei o que sou
nem os hálitos dos céus abrem os caminhos
que sempre quis viver.
Tudo se dispersa nos ventos do deserto
quando fico sozinho
nada me liberta e me sossega
nem a memória dos sonhos, de quando era criança
ainda tenho as roupas do cavaleiro andante
e nas botas as esporas da esperança
jaz morto e arrefece o menino de sua mãe, disse um poeta
e eu sinto um frio imenso
mas talvez ainda tenha tempo…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2015

sábado, 31 de outubro de 2015

Poema aos ventos dos céus


Poema aos ventos dos céus


Ah!... Como é dilacerante
a luta entre o Espírito e a carne
entre a Matéria e o Verbo
a Terra treme debaixo dos meus pés
quando amo
e todos os sonhos do mundo
cabem dentro de mim…

Não há paz no Universo
para meu sossego…

Procuro-te, oh deusa dos céus
dentro da minha visão lunática
que me leva ao princípio dos abismos…

Tudo se apaga à minha volta
e só consigo ver o luzeiro do céu estrelado
e o galope dos ventos cósmicos
que te fecundam…

Alexandre de Castro

Lisboa, Outubro de 2015

domingo, 18 de outubro de 2015

Poema do amanhecer…


Poema do amanhecer…

agora já não é essa loucura
de que me acusas
porque deus morreu
e a loucura  já é outra
fico suspenso de ti
quando habitas o éter das nuvens
e eu te quero dar o que habita dentro de mim…

Alexandre de Castro

Lisboa, Outubro de 2015

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O beijo do poema…


O beijo do poema…

Aproximo-me de ti
por um beijo, por uma flor
por um instante de carinho
que me falta e que me seduz
tudo em mim é confuso
dentro da solidão de estar sozinho
falta a luz que ilumina os sonhos
 que me consomem os desejos
e tudo à volta é secura de desertos
praças vazias, sem árvores e sem gente
pássaros sem asas que morrem no rio
talvez seja isto o amor, já não sei,
mas é de amor o beijo
que deixo no poema.

Alexandre Castro

Lisboa, Outubro de 2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Maya Plisetskaya - Bolero (choreography by Maurice Béjart)




Morreu, no passado dois de Maio, aos 89 anos, a coreógrafa e bailarina Maya Plisetkaya, que se constituiu numa lenda do ballet clássico do século XX. Também morro um pouco, quando vejo desaparecer alguém que admiro.
A sua interpretação do Bolero de Ravel transporta-nos ao êxtase da beleza da Arte. O corpo absorve o ritmo sincopado dos sons musicais, que se transformam em movimento sublime, esteticamente perfeito.
Repare-se, na parte final da actuação, e perante os vibrantes e continuados aplausos do público, na elegância dos desenhos coreográficos, que Maya Plisetskaya executa, em agradecimento. Parece passear-se, como uma pena, por um chão de nuvens, que pisa com delicadeza. Há nesta composição coreográfica uma geometria corporal de grande beleza.

sábado, 28 de março de 2015

Seis poemas de Herberto Helder (1930-2015)




Seis poemas de Herberto Helder (1930-2015)

O coordenador editorial da Assírio & Alvim, Vasco David', e os críticos do PÚBLICO António Guerreiro e Hugo Pinto Santos escolheram seis poemas de Herberto Helder. A edição utilizada foi, em todos os casos, a compilação Poemas Completos (Porto Editora, 2014).
PÚBLICO [24/03/2015]


AOS AMIGOS

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

de Lugar (Escolha de Vasco David’)



Sem Título

alguém salgado porventura
te
toca
entre as omoplatas,
alguém algures sopra quente nos ouvidos,
e te apressa, enquanto corres
algumas braças acima
do chão fluido, leva-te a luz e subleva,
tão aturdidos dedos e sopros,
até ao recôndito,
alguma vez te tocaram nas têmporas e nos testículos, alto,
baixo,
com mais mão de sangue e abrasadura,
e te cruzaram nesse furor,
e criaram, com bafo
ardido, ásperos sais nos dedos, e te levaram,
a luz corrente lavrando o mundo,
cerrado e duro e doloroso, acaso
sabias
a que domínios e plenitudes idiomáticas
de íngremes ritmos, que buraco negro,
na labareda radioactiva,
bic cristal preta onde atrás raia às vezes
um pouco de urânio escrito

de A Faca não Corta o Fogo (Escolha de Vasco David’)



BICICLETA

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.

de Cinco Canções Lunares (Escolha de Hugo Pinto Santos)



Sem Título

que eu aprenda tudo desde a morte,
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda

de A Faca não Corta o Fogo (Escolha de Hugo Pinto Santos)



Sem Título

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela,
a paixão grega

de A Faca não Corta o Fogo (Escolha de António Guerreiro)



Sem Título

cheirava mal, a morto, até me purificarem pelo fogo,
e alguém pegou nas cinzas e deitou-as na retrete e puxou o autoclismo,
requiescat in pace,
e eu não descanso em paz nas retretes terrestres,
a água puxaram-na talvez para inspirar o epitáfio,
como quem diz:
aqui vai mais um poeta antigo, já defunto, é certo, mas em vernáculo
e tudo,
que Deus, ou o equívoco dos peixes, ou a ressaca,
o receba como ambrosia sutilíssima nas profundas dos esgotos,
merda perpétua,
e fique enfim liberto do peso e agrura do seu nome:
vita nuova para este rouxinol dos desvãos do mundo,
passarão a quem aos poucos foi falhando o sopro
até a noite desfazer o canto,
errático canto e errado no coração da garganta,
canto que o traspassava pela metade das músicas
— e ao toque no autoclismo ascendia a golfada de merda enquanto as turvas
águas últimas
se misturavam com as águas primeiras

de Servidões (Escolha de António Guerreiro)