sábado, 28 de março de 2015

Seis poemas de Herberto Helder (1930-2015)




Seis poemas de Herberto Helder (1930-2015)

O coordenador editorial da Assírio & Alvim, Vasco David', e os críticos do PÚBLICO António Guerreiro e Hugo Pinto Santos escolheram seis poemas de Herberto Helder. A edição utilizada foi, em todos os casos, a compilação Poemas Completos (Porto Editora, 2014).
PÚBLICO [24/03/2015]


AOS AMIGOS

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

de Lugar (Escolha de Vasco David’)



Sem Título

alguém salgado porventura
te
toca
entre as omoplatas,
alguém algures sopra quente nos ouvidos,
e te apressa, enquanto corres
algumas braças acima
do chão fluido, leva-te a luz e subleva,
tão aturdidos dedos e sopros,
até ao recôndito,
alguma vez te tocaram nas têmporas e nos testículos, alto,
baixo,
com mais mão de sangue e abrasadura,
e te cruzaram nesse furor,
e criaram, com bafo
ardido, ásperos sais nos dedos, e te levaram,
a luz corrente lavrando o mundo,
cerrado e duro e doloroso, acaso
sabias
a que domínios e plenitudes idiomáticas
de íngremes ritmos, que buraco negro,
na labareda radioactiva,
bic cristal preta onde atrás raia às vezes
um pouco de urânio escrito

de A Faca não Corta o Fogo (Escolha de Vasco David’)



BICICLETA

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.

de Cinco Canções Lunares (Escolha de Hugo Pinto Santos)



Sem Título

que eu aprenda tudo desde a morte,
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda

de A Faca não Corta o Fogo (Escolha de Hugo Pinto Santos)



Sem Título

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela,
a paixão grega

de A Faca não Corta o Fogo (Escolha de António Guerreiro)



Sem Título

cheirava mal, a morto, até me purificarem pelo fogo,
e alguém pegou nas cinzas e deitou-as na retrete e puxou o autoclismo,
requiescat in pace,
e eu não descanso em paz nas retretes terrestres,
a água puxaram-na talvez para inspirar o epitáfio,
como quem diz:
aqui vai mais um poeta antigo, já defunto, é certo, mas em vernáculo
e tudo,
que Deus, ou o equívoco dos peixes, ou a ressaca,
o receba como ambrosia sutilíssima nas profundas dos esgotos,
merda perpétua,
e fique enfim liberto do peso e agrura do seu nome:
vita nuova para este rouxinol dos desvãos do mundo,
passarão a quem aos poucos foi falhando o sopro
até a noite desfazer o canto,
errático canto e errado no coração da garganta,
canto que o traspassava pela metade das músicas
— e ao toque no autoclismo ascendia a golfada de merda enquanto as turvas
águas últimas
se misturavam com as águas primeiras

de Servidões (Escolha de António Guerreiro)

segunda-feira, 16 de março de 2015

Desilusão…


Desilusão…

Na madrugada em que os sonhos se diluem
na luz coada do orvalho
a desilusão inundou-me a alma,
e uma grande tristeza e uma grande mágoa
abriram a ferida antiga, que agora sangra,
porque o rio secou, deixando as margens desertas
e vazias, que se incendiaram
com as reverberações metálicas da luz do meio-dia…

Alexandre de Castro

Lisboa, Março de 2015

terça-feira, 3 de março de 2015

Cavalgada nos Andes


Cavalgada nos Andes


Cavalgo sobre o teu corpo de índia
de nervuras seculares à flor da pele,
mestiçagem de amor nas dobras dos Andes ...
Percorro o corredor do teu medo ancestral
através do mistério do teu olhar negro ...
A tua altivez de estátua, muda e fria,
desafia os cumes brancos
da montanha ...

Gelo e vento, remoinhos de revolta
a povoar o espaço morto do teu passado ...
E o teu vulcão
é um grito sufocado de amor e guerra
que faz tremer a encosta do teu ventre ...

Alexandre de Castro 

MAI /85

segunda-feira, 2 de março de 2015

Hoje os sinos tocaram por ti…


Hoje os sinos tocaram por ti…

A uma amiga que partiu

Hoje, os sinos tocaram por ti
o teu corpo ardeu numa tocha na órbita dos astros
fez-se noite e a noite guardou a tua sombra
quando se apagou o luzeiro do céu
o vento do deserto já levou as cinzas
que tu quiseste que fossem minhas
e eu senti a vertigem dos abismos
debaixo dos meus pés e ouvi os gritos das aves
que chamavam por ti…

Alexandre de Castro

Lisboa, Fevereiro de 2015