sábado, 26 de novembro de 2016

Para Fidel Castro…




Para Fidel Castro…


As árvores ficaram despidas e nuas
quando a tua voz se calou na sombra da noite
e os astros incandescentes se apagaram
ouviram-se os pássaros pendurados nos alpendres
e um relâmpago riscou o céu
da Serra Maestra até Havana
a iluminar o caminho da glória
da tua marcha heróica e triunfal…

Agora, junto a tua voz à minha memória
e à memória da voz do companheiro Che Guevara,
o outro astro incandescente da nova aurora
o outro herói da gesta revolucionária
que acendeu em nós a chama da liberdade
e que morreu lutando pelo sonho que sonhou…
Hasta siempre, comandante Fidel Castro…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2016

domingo, 20 de novembro de 2016

Agarrei o beijo…



Agarrei o beijo…

agarrei o beijo
na volatilidade do ar
e beijei o beijo
como se te beijasse a ti

soprado pelos teus lábios
vinha no enlevo do carinho
e aqueceu o que em mim já estava frio

e depois voou
levando o meu beijo
invertendo o caminho
para chegar ao fim do seu destino
um destino que será o meu…

Alexandre de Castro


Lisboa, Novembro de 2016


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Homo erectus



Homo erectus

Foi através da mão
que ganhaste o pensamento, oh Homem!...
Lá para trás do tempo da escuridão
enquanto nascia a aurora
e muito depois de seres bípede
a habitar o chão…

Não sei se o milagre
pertence a Deus ou à Natureza
e se o mérito de começares a articular os sons
te pertence por inteiro
e é só teu…

Nada iguala esse enorme feito
de te libertares do mundo irracional
e ganhares o mundo da “razão”.

Ficou escrito nas estrelas
que nascera a Humanidade
e o Tempo começou a ser contado
pelo ritmo dos teus passos
e pelos inventos das tuas mãos…

Disseram os anjos, entre si, que começara a civilização…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2016



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Máscara carnavalesca…



Máscara carnavalesca…

Esqueci-me do meu fato de fantasias
neste Carnaval em que me envolvo.
Não afivelei a máscara
ao rosto de todos os dias…

E como eu me sentiria estranho
no meio daquela gente mascarada!
Não me reconheceria no meu rosto verdadeiro…

Todos olhavam para mim
por certo revoltados
por eu usar a máscara
com que amanheço todos os dias.

Máscara real
colada à minha pele e aos meus sentidos
que se ri na alegria
e que chora nos prantos consentidos.

Máscara que faço e desfaço, a meu belo prazer
nas contas que eu faço com a vida…

Alexandre de Castro

Lisboa, s/ data
(Provavelmente do início da década de oitenta, do século passado).

Recuperado do esquecimento em Outubro de 2016. Foi um dos meus primeiros poemas.

domingo, 14 de agosto de 2016

POEMA: DESCRIÇÃO DA GUERRA EM GUERNICA _ Carlos de Oliveira [seguido por uma nota crítica].


DESCRIÇÃO DA GUERRA EM GUERNICA

I

Entra pela janela
o anjo camponês;
com a terceira luz na mão;
minucioso, habituado
aos interiores do cereal,
aos utensílios
que dormem na fuligem;
os seus olhos rurais
não compreendem bem os símbolos
desta colheita: hélices,
motores furiosos;
e estende mais o braço; planta
no ar, como uma árvore,
a chama do candeeiro.


II

As outras duas luzes
são lisas, ofuscantes;
lembram a cal, o zinco branco
nas pedreiras;
ou nos umbrais
de cantaria aparelhada; bruscamente;
a arder; há o mesmo
branco na lâmpada do tecto;
o mesmo zinco
nas máquinas que voam
fabricando o incêndio; e assim,
por toda a parte,
a mesma cal mecânica
vibra os seus cutelos.


III

Ao alto; à esquerda;
onde aparece a linha da garganta,
 a curva distendida como
o gráfico dum grito;
o som é impossível; impede-o pelo menos
o animal fumegante;
com o peso das patas, com os longos
músculos negros; sem esquecer
o sal silencioso
no outro coração:
por cima dele; inútil; a mão desta
mulher de joelhos
entre as pernas do touro. 


IV

Em baixo, contra o chão
de tijolo queimado,
os fragmentos de uma estátua;
ou o construtor da casa
já sem fio de prumo,
barro, sestas pobres? Quem
tenta salvar o dia,
o seu resíduo
de gente e poucos bens? Opor
à química da guerra,
aos reagentes dissolvendo
a construção, as traves,
este gládio,
esta palavra arcaica?


V

Mesa, madeira posta
próximo dos homens: pelo corte
da plaina,
a lixa ríspida,
a cera sobre o betume, os nós;
e dedos tacteando
as últimas rugosidades;
morosamente; com amor
do carpinteiro ao objecto
que nasceu
para viver na casa;
no sítio destinada há muito;
como se fosse, quase,
uma criança da família.


VI

O pássaro; a sua anatomia
rápida; forma cheia de pressa,
que se condensa
apenas o bastante
para ser visível no céu,
sem o ferir;
modelo de outros voos: nuvens;
e vento leve, folhas;
agora, atónito, abre as asas
no deserto da mesa;
tenta gritar às falsas aves
que a morte é diferente:
cruzar o céu com a suavidade
dum rumor a sumir-se.


VII

Cavalo; reprodutor
de luz nos prados; quando
respira, os brônquios;
dois frémitos de soro; exalam
essa névoa
que o primeiro sol transforma
muma crina trémula
sobre pastos e éguas; mas aqui
marcou-o o ferro
dos lavradores que o anjo ignora;
e endureceu-o de tal modo
que se entrega;
como as bestas bíblicas;
ao tétano ao furor.


VIII

Outra mulher: o susto
a entrar no pesadelo;
oprime-a o ar; e cada passo
é apenas peso: seios
donde os mamilos pendem,
gotas duras
de leite e medo; quase pedras;
memória tropeçando
em árvores, parentes,
num descampado vagaroso;
e amor também:
espécie de peso que produz
por dentro da mulher
os mesmos passos densos.


IX

Casas desidratadas
no alto forno; e olhando-as,
momentos antes de ruírem,
o anjo desolado
pensa: entre detritos
sem nenhum cerne ou água,
como anunciar
outra vez o milagre das salas;
dos quartos; crescendo cisco
a cisco, filho a filho?
as máquinas estranhas,
os motores com sede, nem sequer
o espírito das minhas casas;
evaporaram-no apenas.


X

O incêndio desce;
do canto superior direito;
sobre os sótãos,
os degraus das escadas
a oscilar;
hélices, vibrações, percutem os alicerces;
e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
toda a arquitectura;
as paredes áridas desabam
mas o seu desenho
sobrevive no ar; sustém-no
a terceira mulher; a última; com os braços
erguidos; com o suor da estrela
tatuada na testa.

Carlos de Oliveira
(1921-1981) 

***«»***
Carlos de Oliveira, escritor e poeta neo-realista, escreveu este vigoroso poema, ancorando-se nas assombradas figuras da célebre tela de Picasso, para descrever a tragédia do massacre de Guernica, na tarde de 26 de Abril de 1937, perpetrado pela Legião Condor, corpo militar este constituído por várias esquadrilhas de modernos aviões alemães e respectivos tripulantes, e que Hitler enviou em auxílio de Franco, logo no início da Guerra Civil de Espanha.

Iniciou-se aqui uma nova fase na estratégia da guerra, a fase dos bombardeamentos intensivos de populações civis, os chamados bombardeamentos de saturação, conforme a nomenclatura usada pelos estrategas de Goering, e que tiveram trágica continuidade, logo a seguir, na II Guerra Mundial.

O poema de Carlos de Oliveira é um poema consistente, pesado no ritmo e milimetricamente preciso no plano descritivo do tema, obedecendo assim ao cânone da corrente literária neo-realista. 

Ler o poema, tendo a memória fixada na figuração do quadro de Picasso, permite atingir o cume da percepção poética, quer captando a violência das palavras (“motores com sede”,  “lixa ríspida”, “casas desidratadas”, “cal mecânica”, “sal silencioso”, “o gráfico de um grito”) , quer visionando o horror da barbárie perpetrada a sangue frio sobre um povo pacífico.

É através da tela de Picasso, que Carlos Oliveira exibe esse horror, plasmado em palavras, fazendo desfilar o camponês “habituado aos interiores do cereal", mas atónito, pois “os seus olhos rurais/não compreendem bem os símbolos/desta colheita: hélices/motores furiosos”; o construtor de casas “já sem fio de prumo” e o carpinteiro que talhou a mesa “com amor… ao objecto que nasceu/para viver na casa”. E que dizer do cavalo ferido e daquela mulher com “o susto a entrar no pesadelo” e com “seios/donde os mamilos pendem,/gotas duras/de leite e medo; quase pedras”.

Este processo de descrever um acontecimento, socorrendo-se das figuras pictóricas, tal como acontece neste poema, também foi ensaiado em prosa, com êxito, por Saramago, no capítulo introdutório do “Evangelho segundo Jesus Cristo”, descrevendo e inserindo literariamente, segundo a tradição bíblica, as personagens que presenciaram a cena da crucificação, e tal como aparecem figuradas num óleo renascentista.

Este é um poema de antologia, magnífico na forma e na palavra, belo nas imagens e duro no protesto e na indignação. É de guardar para reler. Mas, ele só pode ser entendido inteiramente, conhecendo a moldura histórica do acontecimento de Guernica e retendo nos olhos o dramatismo das imagens de Picasso.
Alexandre de Castro  
31 JAN 2007

Guernica ou o manifesto político de P. Picasso _ por Ângela Veríssimo


*
Guernica
ou o manifesto político de P. Picasso

por Ângela Veríssimo

Um dos quadros que melhor transmite todo o desespero advindo da guerra é o intemporal Guernica de Pablo Picasso, fazendo plena justiça à expressão "uma imagem vale por mil palavras". No início de mais um ano, quase no fim do milénio, aqui neste cantinho do Mundo Ocidental, é tempo de pensar no outro Mundo, cujos povos vivem em palco de guerra, e para os quais nada resta senão esperar por dias de paz.

Picasso não tinha sido muito afectado pela I Guerra Mundial e só com a Guerra Civil Espanhola se interessou por política, tornando-se vivamente solidário com os republicanos. As fotografias que aparecem na imprensa no ínicio de Maio de 1937 relativas ao bombardeamento de Guernica (antiga capital do País Basco) em 36 de Abril tocam-no profundamente. Passado pouco mais de um mês e após 45 estudos preliminares, sai do seu atelier de Paris o painél Guernica (3.50x7.82 m) para ser colocado na frontaria do pavilhão espanhol da Exposição de Paris de 1937 dedicada ao progresso e à paz.

Rapidamente o painél se transforma num objecto de protesto e denúncia contra a violência, a guerra e a barbárie: "O quadro converte-se numa manifestação da cultura na luta política, ou melhor dizendo, no símbolo da cultura que se opõe à violência: Picasso opõe a criação do artista à destruição da guerra"(1).

Donde vem a genial monumentalidade que faz de Guernica uma obra tão singular? Na minha opinião, o seu poder advém da carga emotiva que possui. Efectivamente, o painél não representa o próprio acontecimento, o bombardeamento de Guernica, mas "evoca, por uma série de poderosas imagens, a agonia da guerra total"(2), chegando a constituir uma visão profética da desgraça da guerra que nos ameaça hoje e que nos ameaçará no próximo século que segundo S. Huntington "se caracterizará por muitos conflitos de pequenas dimensões"(3), devido em grande parte à existência, na actualidade, de mais de meia centena de estados fragéis e desintegrados. De facto, a destruição de Guernica foi a primeira demonstração da técnica de bombardeamentos de saturação, mais tarde empregue na II Guerra. Picasso já em fase pós-cubista, consegue aqui tornar o acto pictórico na narração objectiva da ideia que formou perante o acontecimento e da emoção que sentiu. Com ele,"a pintura carrega consigo o seu património de experiências emocionais" deixando de ser "um ideal abstracto de beleza formal ou de representação lírica da aparência vísivel"2. Citando o artista: "Quando alguém deseja exprimir a guerra, pode achar que é mais elegante e literário representá-la por um arco e uma flecha, que de facto, são estéticamente mais belos, mas quanto a mim (...) utilizaria uma metralhadora"(4).

Tecnicamente tudo em Guernica contribui para a transmissão de emoções avassaladoras a começar pelo uso da técnica de "collage" de que Picasso e Braque tinham sido pioneiros em 1911-12 e que o primeiro aqui retoma, já não "colando" objectos na superfície do quadro mas pintando como se fizesse colagens; com este Cubismo de Colagens cria-se um conceito de espaço pictórico radicalmente novo não criado por nenhum artifício ilusionista mas pela sobreposição dos "recortes" planos, neste caso especifíco em tons de preto e cinzento atravessados por claridades brancas e amareladas, numa total ausência da cor, inexoravelmente evocativa da morte.

A par disso, Picasso recorre a formas dramáticas, violentas, a fragmentações e metamorfoses anatómicas que se por um lado criam figuras que não aderem a nenhum modelo "real", por outro exprimem toda a realidade e agonia da dor insuportável. A comprovar isso atente-se nas várias figuras que o pintor representa neste quadro que aparentemente livre, obedece contudo a um rigoroso esquema em termos de construção (imagine-se a tela dividida em 4 rectângulos, com um triângulo cujo vértice corresponde ao eixo vertical que a divide em duas partes iguais): a mãe chorando a morte do filho (descendentes da Pietà...) e o ameaçador touro de cabeça humana, no 1º rectângulo, o "olho" luminoso do candeeiro que derrama uma luz inóspita (no 2º), a mulher com a lâmpada na mão recordando-nos a Estátua da Liberdade (no 3º) e o homem que em desespero levanta os braços ao céu (no 4º). Repare-se ainda no cadáver empunhando a espada partida (um emblema da resistência heróica) e o cavalo ferido que aparecem no referido triângulo. O cavalo é à semelhança do touro uma figura saída da mitologia espanhola; representa o povo que agoniza sob o jugo opressor do touro, símbolo da brutalidade, das forças do mal. 
Hoje, olhar para Guernica é partilhar o horror que Picasso sentiu há 59 anos perante as imagens da destruição da povoação. Por isso, aqui vai um desejo para o novo ano: que em 1996 tratados como os de Dayton não fiquem pelo papel e que haja sempre um pensamento na mente dos homens: GUERNICA NUNCA MAIS!

(1) in "Entender a Pintura", suplemento nº 2 da revista "Artes & Leilões", tradução de Margarida Viegas. (continuar) 
(2) H. W. JANSON: "História de Arte", 4ª Edição, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 1989. (continuar)
(3) CARDOSO,José: "O Terror Supremo", REVISTA do Expresso, 23 de Dezembro de 1995. (continuar) 
(4) SECKLER, J.:"New Masses", 3 de Julho de 1945, citado em "Entender a Pintura", suplemento nº 2 da revista "Artes & Leilões", tradução de Margarida Viegas


terça-feira, 28 de junho de 2016

O amor...

Amor profundo _ Romero Brito

O amor…


O amor descansa na lâmina de um punhal de prata,
à espera do sonho redentor, que ilumine a sua reputação.

Só os fracos e os dementes são incapazes de amar…

O amor é o limite do vácuo
uma semente de ternura, que nasce do botão de uma rosa
 e se dissolve na boca dos amantes…

O amor pode ser cego
mas é a sua luz que dá claridade à noite…

O amor nunca envelhece
tem sempre a frescura da água das nascentes
e, tal como um rio, no seu curso,
ele também engravida a terra…

Alexandre de Castro

Lisboa, Junho de 2016

morrem-me os amigos…



morrem-me os amigos…


morrem-me os amigos
morre-me a esperança
e eu vou morrendo também
no dilúvio da tristeza
de quem perseguiu  o sonho
e já não tem ninguém…

Alexandre de Castro

Lisboa,  Junho de 2016

sábado, 25 de junho de 2016

A minha boca já é um deserto…




A minha boca já é um deserto…


A minha boca já é um deserto,
porque as palavras fogem e não regressam…

É o buraco negro do meu imenso firmamento
que engoliu todas as estrelas contadas
nas noites ácidas da solidão…

E é na alegria da sombra de um oásis
que as palavras resistem ao esquecimento,
esperando o vento, que as liberte…

Alexandre de Castro

Lisboa, Junho de 2016

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Poema onde cabe o silêncio…



Poema onde cabe o silêncio…

Falas-me todos os dias
naqueles teus silêncios mudos
em que és a excelsa  esfinge
e a inefável  musa…
Falas-me com os teus olhos líquidos
pousados na minha sombra
para eu ouvir o eco do teu corpo
e eu sinto o aperto do teu abraço
a envolver o mundo,
e mergulho no teu sono
onde estão guardadas todas as tuas joias…
Caminho pelos trilhos da escuridão
entre mundos que se repetem e se consomem
na voracidade do tempo…

Jamais me encontrarei comigo próprio…
Sou a raiz viva de uma árvore morta…

Alexandre de Castro

Lisboa, Junho de 2016

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dissertação sobre a Arte, a propósito de uma coreografia sobre o Bolero, de Ravel


Last scene of Les uns et les autres (1980) - le boléro de Ravel (aka Bolero)

Dissertação sobre a Arte, a propósito de 
uma coreografia sobre o Bolero, de Ravel

A todas as minhas amigas
 e a todos os meus amigos
 que fazem da Arte um 
Destino e uma Ambição.

Se a Arte derivou da racionalidade do Homem, sem a qual não teria sido possível a sua existência e evolução, também é verdade que a Arte serviu para humanizar a racionalidade, evitando a sua "robotização biológica". O Homem humanizou-se através da Arte, no sentido em que ela lhe moldou o sentido do Belo e do Sublime, do Sonho e da Sublimação, conceitos que mais tarde a Filosofia racionalizou, e que lhe permitiu ultrapassar a fronteira do real e alcançar o estado da abstracção. Ao contrário da Política, da Economia, das Religiões e da Guerra, é a Arte que une os homens e fomenta a Paz. E é por isso que nos maravilhamos perante uma obra de Arte. 
E é o que acontece ao assistirmos a esta dança, concebida sobre o Bolero de Ravel, em que as duas manifestações artísticas se harmonizam, através das suas linguagens próprias, num equilíbrio estético sublime e grandioso, que desperta intensas e fortes emoções.

Dissertação sobre a Arte, a propósito de uma coreografia sobre o Bolero, de Ravel

Maya Plisetskaya - Bolero (choreography by Maurice Béjart)

Dissertação sobre a Arte, a propósito de 
uma coreografia sobre o Bolero, de Ravel

A todas as minhas amigas
 e a todos os meus amigos
 que fazem da Arte um 
Destino e uma Ambição.

Se a Arte derivou da racionalidade do Homem, sem a qual não teria sido possível a sua existência e evolução, também é verdade que a Arte serviu para humanizar a racionalidade, evitando a sua "robotização biológica". O Homem humanizou-se através da Arte, no sentido em que ela lhe moldou o sentido do Belo e do Sublime, do Sonho e da Sublimação, conceitos que mais tarde a Filosofia racionalizou, e que lhe permitiu ultrapassar a fronteira do real e alcançar o estado da abstracção. Ao contrário da Política, da Economia, das Religiões e da Guerra, é a Arte que une os homens e fomenta a Paz. E é por isso que nos maravilhamos perante uma obra de Arte. 
E é o que acontece ao assistirmos a esta dança, concebida sobre o Bolero de Ravel, em que as duas manifestações artísticas se harmonizam, através das suas linguagens próprias, num equilíbrio estético sublime e grandioso, que desperta intensas e fortes emoções.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Dissertação sobre o Flamenco [Poster]

Clicar para ampliar
FOTOMONTAGEM DE LEILA GOMES
Amabilidade de Leila Gomes, a quem agradeço a iniciativa de ilustrar este meu poema, o que fez com grande mestria e talento, ao procurar equilíbrios estéticos, de grande efeito, na composição gráfica do conjunto.

Ver aqui a publicação original do poema.

domingo, 29 de maio de 2016

A Criação de Adão_ Michelangelo

´A Criação de Adão' (1510) _ Michelangelo

Há uma força descomunal nesta composição pictórica, de Michelangelo, que se desprende da figura divina e que a concentra por inteiro, tendo Adão, que a recebe, apenas uma postura passiva.

Trata-se de uma das grandes criações do génio humano, no conjunto das Letras e das Artes, às quais se juntam a Eneida, de Virgílio, a Ilíada, de Homero, O Velho Testamento, D. Quixote, de Cervantes, Hamlet, de Shakespeare, A Divina Comédia, de Dante,.Os Lusíadas, de Camões, Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, Memorial do Convento, de Saramago, as Pirâmides do Egipto, a Mona Lisa, de Leonardo de Vince, Guernica, de Picasso, A Tentação de Santo António, de Dali, a 5ª Sinfonia de Beethoven, o Taj Mahal, na Índia, a Grande Muralha, na China, a Sagrada Família, de Gaudi, a Catedral de Brasília, de Oscar Niemeyer e os poemas Tabacaria, Poema em linha recta, O Guardador de rebanhos e Ode marítima, de Fernando Pessoa (entre outros). 

Quem matar a sede e a fome nestes monumentais tesouros da Humanidade pode dizer que conviveu com os deuses do Olimpo.

sábado, 28 de maio de 2016

Pesadelo...

O Grito _ Edward Munch

Pesadelo…

A alma não sossega 
rebola-se aos gritos
no pesadelo, durante a noite,
afoga-se no turbilhão do sangue em sobressalto
e delira, de madrugada,
exangue e dorida
cheia de feridas
de tantos atropelos contra os ossos,
dorme durante o dia, tranquila,
para meu sossego
até que o meu sono, durante a noite,
a acorde…
Alexandre de Castro


Lisboa, Maio de 2016

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Foi naquela tarde, em Borlänge...

Mulher Africana _ Isabelle - Vital

Foi naquela tarde, em Borlänge...


Foi naquela tarde, em Borlänge,
negra de bandeiras e caveiras,
que da fragilidade trémula de um caule
nasceu uma flor.
Uma pérola negra do rebento de uma semente antiga
- da memória do tempo dos escravos -
venceu a Besta, que não pára de escoicinhar.
A arma secreta e mortífera foi esse teu gesto digno
de entrares nua no covill
e de derrubares as muralhas, onde habitam as serpentes.
Ergueste o teu punho de prata, 
onde guardas as sombras dos teus sonhos
e eu já não tive tempo
de oferecer-te um cravo vermelho, de Abril...

                Alexandre de Castro

Maio de 2016
***

 afro-sueca, Tessa Asplund, de punho erguido, 
faz parar uma manifestação de neo-nazis

sábado, 26 de março de 2016

A História daquela Sexta-feira negra, a que os cristãos chamam Santa


A História daquela Sexta-feira negra, a que os cristãos chamam Santa

Há pouco, vi um pequeno filme que parodiava a Última Ceia, um filme de uma comicidade modesta e, até, de duvidoso gosto. Tomei o seguinte apontamento, que me veio à cabeça, naquele momento: "Afinal, aquilo foi tudo combinado". E comecei a imaginar que a história poderia ter sido outra, mais a meu gosto.
Não eram doze, mas treze, o número de pessoas que se reuniram com Jesus, num cenáculo de Jerusalém, para aquela famosa patuscada. Aos doze discípulos, juntou-se Maria Madalena, que teve de esconder-se debaixo da mesa, para não ficar na fotografia oficial, uma vez que as mulheres estavam excluídas destas reuniões, destinadas apenas a homens de barbas. Em jeito de compensação, no dia seguinte, e antes de ter sido preso, Jesus foi com Maria Madalena fazer um piquenique, num pequeno bosque, nos arredores da cidade, onde ainda tiveram tempo de cheirar as flores campestres, que já estavam a desabrochar, naquela Primavera, que, naquele ano, chegou muito quente. E foi num pequeno lago, que havia ali, que Maria Madalena deu o Último Banho" a Jesus, facto que foi ocultado pelos apóstolos, quando escreveram os Evangelhos, e isto porque lhes convinha apresentar Jesus aos crentes, como um ser totalmente assexuado. Como Maria Madalena estava muito fragilizada, porque, devido ao calor, teve três desmaios, Jesus foi a uma aldeia próxima e alugou, numa loja, uma bicicleta, a um fariseu, aluguer esse que nunca chegou a ser pago, e que,  por iniciativa dos respectivos e sucessivos herdeiros, ainda hoje anda em disputa nos tribunais eclesiásticos. E foi de bicicleta que ambos regressaram a Jerusalém, ele a pedalar e ela sentada no assento sobre a roda traseira. Foi já perto do Templo que uma patrulha de soldados romanos os mandou parar, tendo Jesus sido preso, por não ter licença de condução, passada pela autoridade administrativa romana. Os sacerdotes, que da escadaria do Templo presenciaram o incidente, e como não perdoavam a Jesus o facto de Ele se considerar o Messias, enviado por Jeová, souberam aproveitar a oportuna ocasião para o tramar, sublevando os judeus mais radicais e acusando o “impostor” de promiscuidade. E é com esta acusação que Jesus é levado à presença do cônsul Pilatos, que lavou as mãos e assobiou para o lado, sendo, então, a populaça enfurecida a condená-lo à crucificação.
Durante aquele tormentoso percurso até a gólgota, Jesus, carregando o pesado madeiro, sucumbiu três vezes, e, numa dessas quedas, foi Maria Madalena que lhe limpou a cara, suja de sangue e de terra, com um pano de linho, onde ficaram marcadas, como se fosse um negativo de uma fotografia a preto e branco, as linhas do rosto, onde sobressaiam os olhos a evidenciar grande sofrimento, e a coroa de espinhos, que a populaça, divertida, lhe enfiou na cabeça, como se, naqueles conturbados tempos, já existisse Carnaval.
Morreu trespassado por uma lança de um soldado romano, e nunca se chegou a saber se aquilo foi um gesto de misericórdia, para abreviar o sofrimento do condenado, ou se foi a manifestação de um automatismo, adquirido na guerra, em que, depois da batalha vencida, se assassinavam os feridos graves, a sangue frio.
Maria Madalena é que nunca mais retirou os olhos daquele rosto, um rosto que, ainda naquela manhã, ela vira iluminado por um clarão, que só a alegria do prazer dá, quando ambos cheiravam as flores campestres, no bosque. E ali ficou, sozinha, depois de os familiares e os seguidores de Jesus terem debandado, quando começou a anoitecer.
Julga-se que foi ela que retirou o corpo de Jesus da cruz, não se sabendo onde o sepultou. Também ninguém mais a viu. Ainda hoje, nas noites de lua cheia, se ouvem os seus gritos, a fazerem eco na cerca de muralhas da cidade. Mas ninguém quer ouvir estes gritos, porque Maria Madalena tornou-se incómoda para a História Universal das Verdades Eternas e Indiscutíveis, livro que se transformou no documento fundador do Internacionalismo Cristão, instituído por Paulo de Tarso, na sequência daquele clarão deslumbrante, que rasgou o Céu e iluminou a Terra, na Estrada de Damasco. 
Alexandre de Castro
Lisboa, Março de 2016