quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Recuso fazer a contabilidade da morte...



Recuso fazer a contabilidade da morte...

Recuso fazer a sinistra contabilidade
da morte, que companheiros ceifa,
o tempo escurece nas saliências da memória
e as flores da primavera já não são as mesmas
esgotam-se as incandescências da luz
que vestimos na juventude,
a endoidecer os astros
que nos acusavam aos deuses
das nossas tropelias e rebeldias…

Era o tempo puro da liberdade das aves
que não queriam morrer na praia nem no deserto…
Era a vida a pulsar nos punhos,
no turbilhão do sangue
e que agora morre, irremediavelmente,
no turbilhão do Tempo.
Alexandre de Castro

Lisboa, Dezembro de 2017

domingo, 10 de dezembro de 2017

Oração poética



Oração poética

Quando se fala de caridade
deve falar-se de fé e ideologia
e de  Isabel Jonet*
que trabalha de graça para Deus,
embora o Nazareno, sem saber a tabuada,
lhe tenha feito uma partida,
baralhando o jogo
com o milagre da multiplicação dos pães...

Alexandre de Castro
Lisboa, Dezembro de 2017

*Directora do Banco Alimentar Contra a Fome

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A síndrome do olho direito - Poema de Maria Azenha...



A síndrome do olho direito


hoje ao sair de casa encontrei algumas pessoas
com um tremor miudinho nas pálpebras
nas lojas onde entravam empregados e outros entes
sofriam da mesma tremura
reparei que o fenómeno estava instalado no olho direito
o que é intrigante é que alguns comentadores políticos
repetiam o charme da tremura do mesmo lado
quando olhavam para a câmara era uma tremedeira.
pensei que era até uma herança da troika
o caso agravou-se porém quando foi dado nota que um homem
para deixar de tremer instalou na cabeça uma gaiola.
sob o efeito da notícia o país começou a escrever
em escrita automática.

hoje quando regresso ao trabalho a primeira coisa que faço
é esconder o olho direito com uma pala.


maria azenha


***«»***

O meu comentário:

Um genial poema caricatural, certeiro e arrasador na forma e no tema, e que elege o lado mais ridículo e mais caricato do cenário político português (e sem esquecer os tempos negros da troika).
A “tremedeira nacional do olho direito”, que a “poeta” sinalizou no título como “A síndrome do olho direito” é uma metáfora riquíssima e talentosa, pela mordacidade que transporta e pelos vários significados políticos que contém. Significados que a “poeta” não necessitou de especificar, pois todos eles se inferem, logo numa primeira leitura. E para engalanar o círculo poético da sátira corrosiva, a “poeta” agrega ao poema o aparecimento de uma nova e inesperada epidemia nacional, que alastrou a um determinado segmento da população portuguesa, que o leitor também rapidamente identifica, e que tem um grau de perigosidade idêntico ao da peste negra, na Idade Média.
Este poema é incisivamente cáustico e demolidor para os traficantes das ilusões saídas em série das fábricas dos sonhos e transformadas em promessas de curta duração, que nunca se cumprem.
E isto é de tal modo verdade, que eu já vi pessoas com gaiolas na cabeça e comentadores dos jornais “a escrever em escrita automática”.
Alexandre de Castro
2017 11 13

sábado, 11 de novembro de 2017

Pôr do Sol _ Fotografia de Milú Cardoso

Pôr do Sol _ Fotografia de Milú Cardoso

Uma belíssima fotografia de Milú Cardoso.
Um feliz instante, em que a tonalidade da cor do ouro une e abraça o Céu, o Mar e a Terra.
Alexandre de Castro
2017 11 11

domingo, 5 de novembro de 2017

Há matéria para lá da matéria...



Há matéria para lá da matéria...

Para lá do Universo que se vê e se advinha
há um outro universo que se esconde
e não se deixa ver.
É a matéria escura,
onde mergulha o mistério
e ainda não se sabe o nome do Deus
que lá habita
nem o do livro sagrado que escreveu…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2017

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Maio renasce em mim todos os anos…

Tatuagem sobre o signo Gémeos do Zodíaco


Maio renasce em mim todos os anos…

Maio renasce em mim todos os anos
na minha contabilidade entre o futuro e o passado
o Deve/Haver dos números de uma vida
entre passivos e activos, lucros e perdas
saldos negativos e positivos
registados no Livro do Tempo
de todos os calendários…

Maio renasce em mim todos os anos
na geometria da rotação da esfera
crescem os poliedros de arestas agrestes
e cortantes, que me atormentam…

Maio renasce em mim todos os anos
e hoje é o dia da conjunção de todos os astros
que se reuniram em secreto concílio
para me julgarem à revelia
por eu me ter revoltado contra os signos do Zodíaco…

Maio renasce em mim todos os anos…

Alexandre de Castro

Lisboa, Maio 2017

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Elefante numa loja de porcelanas…

Nu, folhas verdes e busto _ Pablo Picasso



Elefante numa loja de porcelanas…

Há mulheres que escrevem poemas às escuras
na mão escrevem um nome de um santo.
Sentadas, ficam à espera que as tempestades
desabem sobre os homens das suas paixões
normalmente são mulheres estéreis
que foram educadas à sombra dos conventos
 e que se benzem antes do coito,
assombradas por medos ancestrais.
Tenho de as segurar nos abraços fatais
quando reviram os olhos nas órbitas dilatadas
e o corpo é uma haste trémula de um arbusto
sacudido pela passagem do vento.
Não há um sorriso de encantamento,
naqueles rostos cerrados, habituados à clausura
apenas o fantasma do pecado
e a sombra negra do pesadelo nas noites brancas…

Alexandre de Castro
Lisboa, Abril 2017

Incandescências _ Fotografia de Milú Cardoso (**)

Incandescências _ Fotografia de Milú Cardoso


Incandescências _ Fotografia de Milú Cardoso (**)

Nesta fotografia de Milú Cardoso está tudo: luz, cor, contraste e forma, e, acima de tudo, a enorme capacidade da autora de descobrir a oportunidade para captar a beleza, que a Natureza oferece. Há algo de mágico, nesta fotografia, que nos encanta. E dela escorre uma serenidade, que nos seduz. Repare o leitor como os mastros das embarcações, batidos pela luz rasante do Sol poente, ganham outra majestade e beleza. E, a marcar o horizonte, a luz do fogo a incendiar os nossos olhos.
Alexandre de Castro

(**) Título do editor
2017 05 18

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Dunas _ Fotografia de Milú Cardoso

Dunas _ Fotografis de Milú Cardoso

Dunas _ Fotografia de Milú Cardoso

A fotografia de Milú Cardoso tem uma particularidade interessante: a descontinuidade do plano de profundidade, conseguida pela ocultação do plano de médio fundo, através da sobrevalorização visual -  magnífica, e esteticamente brilhante - do primeiro plano, o imediatamente perceptível para o observador, em que surge o entrelaçado das hastes dos arbustos, num efeito de rara beleza.. O contraste do amarelo dos arbustos com o azul das águas do mar acaba por enriquecer o conjunto. Trata-se, pois, de uma belíssima fotografia.
Alexandre de Castro
2017 04 09

domingo, 7 de maio de 2017

Poemas para o Dia da Mãe _ vários



6 poemas para o Dia da Mãe

Poema à Mãe

Eugénio de Andrade

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade
***«»***

Porque os outros se mascaram mas tu não

Sophia Mello Breyner Andresen

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia Mello Breyner Andresen
***«»***

Ontem e hoje, Mãe!

Maria Azenha

Mãe,
ainda que na Árvore da Vida habites,
sinto a ausência dos teus beijos.
O nosso amor é como um vaso de leite derramando branco
nas nuvens.
As células do nosso corpo,
pequeníssimas estrelas,
comungam todas da mesma revolução.
Mãe,
a comunhão é um estado de autoconhecimento.
e a matéria veste-se para o Inconsciente:
primeiro, sono.
depois, sonho.
por fim,
rendição.

Tu és Deus, e eu também.
Quando te chamo, avanças
quatro,
cinco,
seis mil anos.
Quando entramos em sintonia com os astros
sentimos a alegria do comunismo
das árvores em tuas mãos.

A Vida é um hiper-estado de consciências.
Os crimes são anti-humanos.
As formigas, radiogaláxias que estabelecem comunicações
através das suas pequenas antenas.
Os poetas fazem parte desta sociedade de partículas.

Mãe,
as últimas ondas de luz do universo
transformaram-se em humildes campos terrestres.

Mãe,
não consigo dividir-me por zero.
Tudo está em expansão, quero dizer:
cada vez mais próximo dum ponto central.
Cada centro do espaço
é um novo projecto.
E a luz, a harpa de Thales,
que um dia disse: " Tudo está cheio de Deus".

Eu digo, deus ou deuses
porque as nossas almas são partículas enraizadas nos céus.
Sabes como os asteróides representam a mesma dança – são eles isotrópicos.
Cantam a Incriação.
E eu entro no câmbio,
- colho as sementes do espaço que não mais
existem no zero.

Ontem,
tornei-me photograficamente um quantum.

Alguém disse: " Vieste do Improvável e vais para o Improvável".
Movimentamo-nos em campos de energia. Dançamos.
Deles brota a sagrada estrela da Harmonia.

Mãe,
dizem os índios:
"Se temos um coração bom quando dançamos,
então, chove."

maria azenha

***«»***

Mãe...

Sónia M

(...) Mãe
não te canses ainda.
Continua a ouvir meu desabafo.
Limpa minhas lágrimas puras,
de um sofrimento
que em mim não finda.
Envolve-me com o teu abraço ternura.
Aquece-me a alma no teu peito.
Olha-me com esse teu jeito
de que a infância para sempre dura.
(...)

Sónia M
***«»***


Sem Título

Maria Gomes

De onde te escrevo, resignam-se as árvores
as inextinguíveis árvores que ouvíamos rezar
e o sol sem ninguém, a sombra híbrida, a vida…
é por isso que eu ando por dentro do coração das coisas, mãe.

Tenho, agora, o meu rosto no sangue,
pugna o mais breve pássaro que aprovou o silêncio.
com a dor que sinto,
como um círio extinto dou-me à terra duradoura,
deflagram os longínquos rios quando o sol se apaga.

Outrora, a paisagem era a lisura da espuma,
tecia-lhe os olhos. vinha à boca o trigo íngreme das marés.
e tudo aquilo era vertiginoso, tranquilo –
uma mulher largava o linho anil
e ele trazia-nos todas as rosas, mãe.

Mariagomes
***«»***

Mãe

Alexandre de Castro

Naquele último momento
tentaste confessar-me um segredo,
um segredo qualquer
guardado uma vida inteira
e que eu não entendi
porque a tua fala desesperada
ficou suspensa
nos lábios imobilizados.
Só os teus olhos alarmados
mexiam de ânsia e medo.
Mas não sei se seria realmente um segredo
o que me querias dizer
ou apenas um último lamento
ou até, quem sabe,
a recordação daquelas tardes de Junho,
quando ainda era criança,
em que te deitavas comigo
(enrolados num cobertor de papa)
com medo das trovoadas.
- É Deus que está a ralhar – dizias-me,
enquanto me apertavas com carinho,
para me proteger.
Talvez, também, quando me perdi de ti,
por um breve instante,
e perguntei, depois de te reencontrar,
se eras realmente a mesma mãe,
se não eras outra, igual à primeira,
de um mundo que, por momentos,
eu imaginei duplicado, em coisas e pessoas,
e que agora sei que não existe,
porque tu já morreste
e eu não vejo nem tenho outra mãe.

Alexandre de Castro
Lisboa, Maio de 2007
2017 05 07

domingo, 30 de abril de 2017

Poema da Salvação…



Poema da Salvação…

Regressaste até mim, descalça e submissa
depois de teres ido experimentar as cores do mundo.
Mas eu não te quero assim.
Quero-te mulher livre e mulher inteira,
tal como te conheci…

Alexandre de Castro

Abril 2017

sexta-feira, 14 de abril de 2017

É urgente um poema…


É urgente um poema…

Encanto do meu canto...
Glicínia de um poema,
que ainda ninguém escreveu,
porque a "poeta" ultrapassa as barreiras
de todas as metáforas conhecidas
e de todas aquelas que ainda não foram inventadas.
E é urgente um poema!...
E tu serás sempre "poema",
na alma e na carne
na fronteira do sonho 
que me alimenta os dias,
mesmo antes de seres mulher inteira,
bela e exacta…

Alexandre de Castro

Lisboa, Abril 2017

2017 04 14

sábado, 1 de abril de 2017

Carl orff -Carmina Burana /Koninklijke Chorale Cæcilia


Quando o sentido das coisas é uma nuvem a arder em chamas

Quando o sentido das coisas é uma nuvem a arder em chamas, passo por aqui e deixo-me levar pelo encanto da música, na onda empolgante dos sons e das vozes, e desato os nós do pensamento, que fica à solta, sem qualquer freio. Descubro, então, que o amor é uma coisa complicada, porque há sempre uma surpresa em cada esquina da vida. É sempre igual e sempre diferente, seja ele trágico, romântico e até cómico, circular ou poliédrico, amor livre ou amor estável, de toda uma vida. Uma coisa é, certamente: é o ninho de todos afectos, se pretendermos defini-lo na sua amplitude universal e, numa outra dimensão, será aquele amor contagiante, que tem a sua máxima expressão física no beijo e no sexo.
Pois é, até aqui nada de novo, dirá o leitor. O problema está nas tempestades e nos terramotos, que deixam feridas profundas. É bem verdade, direi eu, mas isto também faz parte do amor, porque nada existe, sem o seu contrário.
E, depois, há os amores impossíveis, marcados pela condição e pela contradição. E, para estes, não existe antídoto.

Alexandre de Castro
2017 04 01

quinta-feira, 30 de março de 2017

É este o fulgor do instante…


É este o fulgor do instante…

Há rostos que se escondem no silêncio e na ausência
e eu apenas os posso ver através da minha cegueira.
É este o fulgor do instante,
quando o instante se revela em toda a sua plenitude.
É de ti, que há-de vir o último sopro de vida
que me liberte da escuridão dos dias…

Alexandre de Castro

Lisboa, Março de 2017

Ver também aqui.

O ziguezague da água _ Fotografia de Milú Cardoso (**)

O zeguezague da água _ Milú Cardoso

Captação oportuna de um belo e original efeito da Natureza, Natureza essa que está sempre a surpreender-nos.

(**) Título do Editor
Ver também aqui
2017 03 30

terça-feira, 28 de março de 2017

A grande noite do deserto _ Maria Azenha

A Tentação de Santo Antão _ Salvador Dali

A grande noite do deserto

Um segundo é suficiente para saltar fora
Ou ir à Gulbenkian ver o Almada ,o Lorca, o Cesariny
Tocar o anjo maldito da Memória
E abrir uma brecha nos viveiros do Poder.
Estou farta de corruptos,de cibernéticos, de tecnocratas
do Amor encontrado em marinheiros de fogo, em narcóticos democráticos
de ficheiros encriptados
no Medo,
no Terror!
Há Inaugurações de montras  com Montanhas ao pescoço,
e ar condicionado em gabinetes altamente presos,
e toda esta loucura procurando crianças e alfinetes em bombas.
Os núncios apostólicos do globo olham o mundo
através de sargetas, de swings de estrume com flores,
de ficheiros anónimos, de trapézios, de bonecos encriptados
que bebem copos e dançam com mulheres em noites seráficas.
Nietzsche pede socorro a todos os poetas torturados pela realidade!
Há um tratado alquimista escondido nos bolsos dos robots.
Há milhões de versos por fazer enrolados em mochilas de Rimbaud.
As epopeias do século XXI vertem enxofre e ouro.
Milhares de Criaturas saem do nada. Ocupam postos de trabalho em tigelas embotadas.
Seus olhos muito abertos e muito cerrados
Voltam-se para a direita e para a esquerda.
Dormem à hora programada com leite encriptado no telemóvel.
É preciso sacar unhas ao globo para compor música atómica!
Ele é uma metralhadora instalada em toda a parte. Em qualquer lugar.
Comemos carne e peixe ao almoço em grandes contentores,
Mastigamos bifes sintéticos, palitos de la Reine com aplicações nos semáforos.
É urgente gritar  contra a violência das cidades,
Puxar galáxias para baixo em estado de graça.
Minha alma precisa de encontrar uma árvore a sério
e com ela treinar os pulmões a cores.
Estou farta de genuflexões bondosas,de senhores da misericórdia,
de anjos com asas anunciando esperança e amor!
Sou da estirpe dos pobres, dos afogados, dos que sofrem calados,
dos biliões de vozes sem nome…
Isto é terrorismo em arranha-céus de dor!,
Terrorismo que reduz o indivíduo a um bocado de caca.
Os computadores atravessam o Tejo e outros rios da Terra,
Anunciam viagens de escravos de um lado para o outro.
São grandes transatlânticos do sofrimento em ferro, grandes filmes do crime
com pessoas que já não conhecem sonhos…
E vivem em grandes explosões demográficas.
Mozart caiu cedo demais na vala. Estava fora do século.
Há praças que se transverteram em campos-santos de gente anónima,
bandos metralhados por ordens  a qualquer dia e hora.
Em qualquer ponto do espaço as unhas dos astros ferraram-se no solo .
Vieram com Baudelaire para anunciar a catástrofe.
Vivemos em conglomerados de cidades embalsamadas em gelo e dor:
Múmias sempiternas com suas fardas de cimento, obedientemente cegas.
O século escreve o novo livro da história:
“A grande noite do deserto”


©maria azenha

***«»***

Um poema arrasador, brutal, altamente subversivo para o sistema das castas e para a nossa civilização carnavalesca e que ultrapassa todas as fronteiras poéticas, para se erguer como um violento e incisivo manifesto panfletário, capaz de corroer as torres de marfim do poder.
Alexandre de Castro
***«»***

Os melhores de 2016: poesia

Dezembro 29, 2016

A casa de ler no escuro, de Maria Azenha

A poesia dessa portuguesa de Coimbra chegou-me através da organização de uma das edições do caderno-revista 7 fases. E, depois, aconteceu de ler este livro editado no Brasil. Trata.se de uma poesia com dicção muito individual e atenta às imagens do mundo social. Numa conjuntura em que esse universo nos parece cruel, perigoso e uma prova definitiva de que o homem tem (an)dado errado no mundo, é possível ainda extrair, do acaso ou das situações mais invisíveis algum alento para o fim. A estética de Maria Azenha cumpre esse papel de ser uma lufada de ar numa existência árida.

In LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO

***«»***

O livro de poemas, de Maria Azenha, A casa de ler no escuro, (editora Urutau), foi incluído, pela revista LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, na lista dos dez melhores livros de poesia, publicados no Brasil, em 2016.
Tive a honra de ter sido convidado pela autora a deixar um pequeno apontamento no respectivo prefácio, assim como receber das suas mãos um exemplar, com uma simpática dedicatória.
2017 03 28